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Saúde bucal

Vape e saúde bucal: como o cigarro eletrônico afeta dentes, gengivas e saliva

27 de agosto de 20269 min de leitura
Vape e saúde bucal: como o cigarro eletrônico afeta dentes, gengivas e saliva

A rápida popularização dos Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs) — amplamente conhecidos como vapes, pods, e-cigarros ou cigarros eletrônicos — tem gerado profunda preocupação entre as autoridades sanitárias e os conselhos profissionais de saúde em âmbito global. Promovidos comercialmente com apelos de modernidade, design tecnológico, aromas atraentes e a falsa premissa de constituírem uma alternativa inofensiva ao fumo convencional, esses dispositivos vêm conquistando uma adesão expressiva, sobretudo entre adolescentes e adultos jovens.

No entanto, a comunidade científica e os órgãos de referência em saúde pública no Brasil, incluindo o Conselho Federal de Odontologia (CFO), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Instituto Nacional de Câncer (INCA), têm emitido alertas enfáticos sobre os severos impactos do uso desses aparelhos sobre os tecidos orais. Por ser a primeira porta de entrada e a via biológica que recebe diretamente o fluxo de aerossol aquecido, a cavidade bucal sofre alterações precoces e profundas na dinâmica salivar, na integridade do esmalte dentário, na resposta periodontal e na saúde da mucosa.

O vape produz apenas vapor de água?

Um dos mitos mais persistentes e perigosos que cercam os cigarros eletrônicos é a alegação enganosa de que eles liberam apenas vapor de água inócuo. Essa afirmação não possui nenhum fundamento técnico. O que os dispositivos produzem e lançam na boca do usuário é um aerossol químico complexo, gerado pela vaporização sob alta temperatura de uma matriz líquida (e-liquid ou juice).

Essa solução líquida tem como solventes básicos o propilenoglicol e a glicerina vegetal. Quando aquecidos pela resistência metálica da bobina (coil), esses compostos sofrem pirólise e degradação térmica, originando substâncias carbonílicas tóxicas e irritantes, como formaldeído, acetaldeído e acroleína. Além dos solventes, a esmagadora maioria das formulações contém nicotina em doses elevadas — frequentemente formulada com ácidos para produzir sais de nicotina, que mascaram a aspereza na garganta e aceleram a dependência química —, além de dezenas de aromatizantes químicos artificiais e partículas microscópicas de metais pesados (como níquel, cromo e chumbo) desprendidas do filamento de aquecimento.

Alterações na saliva

A saliva desempenha um papel protetor indispensável para a homeostase e o equilíbrio do ecossistema bucal. Ela é responsável direta pela neutralização de ácidos gerados pelo metabolismo bacteriano (capacidade tampão), pela lubrificação e proteção física das mucosas, pela remineralização contínua do esmalte através da biodisponibilidade de íons cálcio e fosfato e pela defesa imunológica primária por meio de lisozimas, lactoferrina e imunoglobulinas (IgA secretora).

Investigações científicas recentes, como os estudos desenvolvidos no âmbito de centros de pesquisa em saúde de São Paulo, revelam que a inalação continuada do aerossol dos cigarros eletrônicos provoca desregulação quantitativa e qualitativa na secreção salivar. A exposição repetida aos componentes higroscópicos do propilenoglicol causa dessecação crônica dos tecidos e desencadeia um quadro acentuado de boca seca (xerostomia).

Com a redução substancial do fluxo salivar e a deterioração da capacidade tamponante, o pH bucal torna-se persistentemente mais ácido. Esse ambiente desfavorável desprotege a superfície dos dentes, suprime a ação de proteínas protetoras essenciais e propicia um desequilíbrio ecológico generalizado da microbiota oral.

Dentes, esmalte e risco de cárie

A combinação entre a acidez persistente do meio bucal e a composição físico-química dos vapores afeta de forma direta as estruturas mineralizadas dos dentes. Ensaios microbiológicos demonstram que a viscosidade da glicerina vegetal combinada aos aditivos de sabor cria uma película superficial altamente aderente, que funciona como um substrato nutritivo e de ancoragem para bactérias cariogênicas, com destaque para a proliferação acelerada do Streptococcus mutans.

Simultaneamente, pesquisas analíticas sobre a microestrutura dental evidenciaram que a ação cumulativa dos aerossóis pode induzir uma queda na microdureza do esmalte, tornando-o mais suscetível à desmineralização química e ao desgaste mecânico. Em um cenário em que a saliva perde sua capacidade natural de remineralizar os tecidos duros, o processo carioso encontra terreno fértil para se estabelecer com maior agressividade, resultando frequentemente em lesões cariosas múltiplas em faces proximais, margens cervicais e ao redor de restaurações pré-existentes.

Cirurgiã-dentista examinando dentes e gengivas de paciente adulto

Gengiva, mucosa e cicatrização

Os impactos negativos do cigarro eletrônico sobre os tecidos de suporte periodontal e o revestimento mucoso representam outro ponto crítico de preocupação clínica. A nicotina absorvida atua farmacologicamente como um potente agente vasoconstritor nos capilares periféricos, diminuindo a irrigação sanguínea, a oxigenação e o aporte de células de defesa nas gengivas.

Essa redução do fluxo circulatório tem um efeito perigoso: mascara os sinais inflamatórios evidentes da doença periodontal, como o sangramento gengival à escovação e à sondagem clínica. Como resultado, processos destrutivos crônicos — incluindo a reabsorção do osso alveolar e a perda de inserção conjuntiva — podem avançar de maneira silenciosa e assintomática até estágios avançados.

Adicionalmente, os compostos oxidantes do aerossol exercem toxicidade direta sobre os fibroblastos gengivais e as células do ligamento periodontal, inibindo a síntese de colágeno. Esse comprometimento celular prolonga o tempo de cicatrização pós-operatória e eleva o risco de complicações infecciosas após intervenções cirúrgicas, como extrações dentárias, cirurgias de enxerto e instalação de implantes odontológicos.

Manchas e alteração da aparência dos dentes

Mesmo na ausência da queima tradicional de folhas de tabaco que produz o alcatrão, os dispositivos eletrônicos não estão isentos de causar prejuízos estéticos notáveis ao sorriso. A condensação de substâncias químicas corantes, aliada à deposição de nicotina oxidada sobre a microporosidade do esmalte e das restaurações em resina composta, resulta em manchas amareladas e acastanhadas persistentes.

O ressecamento constante da cavidade oral acelera a formação de biofilme maduro e densamente pigmentado, que se fixa com tenacidade às superfícies dentárias, exigindo procedimentos mais frequentes e profundos de profilaxia profissional no consultório para restabelecer a estética.

Existe relação comprovada com câncer de boca?

O debate a respeito da carcinogenicidade dos cigarros eletrônicos requer extrema precisão ética e rigor técnico baseado em evidências consolidadas. Conforme posicionamento oficial emitido pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO), até o presente momento não existem dados epidemiológicos longitudinais conclusivos que comprovem uma relação causal direta e exclusiva entre o uso de vapes e a incidência de câncer bucal em humanos.

Entretanto, entidades especializadas como o Instituto Nacional de Câncer (INCA) alertam que a ausência de um nexo causal estabelecido no curto prazo não significa inexistência de risco. O aerossol inalado carrega substâncias reconhecidamente citotóxicas, genotóxicas e mutagênicas, como formaldeído, nitrosaminas específicas e hidrocarbonetos. O contato crônico dessas moléculas com o epitélio bucal gera estresse oxidativo intenso e lesões no DNA celular, justificando vigilância estomatológica rigorosa e constante por parte dos profissionais de saúde.

Cigarros eletrônicos são permitidos no Brasil?

A situação regulatória dos Dispositivos Eletrônicos para Fumar no Brasil é categórica e clara: a comercialização, importação, armazenamento, distribuição, transporte e publicidade de qualquer tipo de cigarro eletrônico são estritamente proibidos em todo o território nacional. Essa proibição foi originalmente instituída pela Resolução de Diretoria Colegiada da Anvisa (RDC nº 46/2009) e expressamente reafirmada e atualizada pela RDC nº 855/2024.

A manutenção da proibição pela agência reguladora brasileira ocorreu após ampla revisão técnico-científica de relatórios internacionais de toxicologia e audiências públicas. Diante dessa realidade legal, qualquer dispositivo ou líquido aromatizado comercializado no país possui origem clandestina, o que significa ausência total de controle sobre impurezas, solventes proibidos e limites de substâncias prejudiciais à saúde.

Como o cirurgião-dentista pode ajudar?

O cirurgião-dentista ocupa uma posição privilegiada e fundamental na detecção precoce dos agravos à saúde bucal decorrentes do uso do vape. Durante a anamnese clínica, o profissional deve incluir questionamentos específicos sobre hábitos inalatórios de maneira empática e acolhedora, estabelecendo um canal de diálogo aberto e sem estigmas com o paciente.

A realização de um exame estomatológico sistemático de toda a cavidade oral — inspecionando detalhadamente bordas laterais da língua, assoalho bucal, palato mole, orofaringe e rebordo alveolar — permite identificar lesões teciduais pré-malignas em estágios iniciais. Concomitantemente, a aplicação estrita de protocolos de biossegurança no consultório assegura que as avaliações, raspagens e orientações preventivas ocorram sob condições máximas de segurança e assepsia clínica.

Parar de usar é a principal forma de reduzir a exposição

A interrupção completa do uso de dispositivos eletrônicos constitui a estratégia terapêutica mais eficaz para frear a deterioração dos tecidos orais, restaurar o fluxo e a composição salivar e reduzir significativamente o risco de perdas dentárias e patologias orais severas.

Pacientes que enfrentam a dependência de nicotina devem ser encorajados a buscar auxílio com profissionais capacitados e a acessar os serviços gratuitos do Programa Nacional de Controle do Tabagismo (PNCT), integrado à rede de Unidades Básicas de Saúde do SUS. O programa oferece acolhimento multidisciplinar, abordagens cognitivo-comportamentais e acompanhamento clínico contínuo para apoiar o paciente em todas as etapas da cessação.

Conteúdo informativo produzido pela Dental Cralab para apoiar profissionais, estudantes e a população na promoção da saúde bucal.

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